“Surra de Lúpulo” ep.86: Cerveja artesanal na periferia

Cerveja na periferia com Tayná Morena, Eneide Game e Melissa Miranda

Nessa edição do Surra de Lúpulo, nosso podcast sobre cervejas artesanais, conversamos com as sócias fundadoras da cerveja Corisca (até início de dezembro era chamada de Beneditas), Melissa Miranda e Eneide Gama, e com a Tayná Morena, do perfil @cervagram, sobre a presença da cerveja artesanal na periferia. 

Consumo de cerveja artesanal na periferia

O primeiro tópico trazido é que o consumo de cervejas especiais na periferia, demonstra que o mercado artesanal é menos abrangente e inclusivo do que gostaríamos. Entretanto, para a Tayná, existem marcas e produtos que ajudam a introduzir a curiosidade aos paladares deste público, por exemplo as ditas cervejas puro malte. Enquanto isso, ela encara como o grande desafio para ampliar o consumo das especiais é a dificuldade do acesso aos produtos.

“A periferia bebe cerveja sim e se interessa por esse assunto. É só ter acesso a esse tipo de bebida.”

O difícil acesso a cerveja artesanal na periferia é causado pela falta de lojas especializadas, limitação às ofertadas nos hipermercados e os altos custos de fretes dos e-commerces.

Para Eneide, ainda tem a questão de compreender como o hábito de consumo de um público acostumado com litrão. Ou seja, nível etílico, quantidade e baixo preço. Ela acusa que precisa de muito trabalho para provocar a experimentação, inclusive disponibilizando as degustações gratuitas.

Elas aproveitaram para lembrar o começo da Corisca, que chegou a estar presente em 40 bares periféricos.

“Trabalhamos muito os bairros daqui. Campo Limpo, Lapão…” – relembra Eneide.

Além das barreiras para os consumidores, Eneide e Melissa apontam os desafios para empreender nesses mercados.

“A gente idealizou viver só de eventos e bares periféricos. Mas, o problema é maior. Para você tomar, experimentar e gostar. É mudança de habito.” – afirma Melissa.

“O empreendedor periférico não tem tempo para ficar testando. Ele faz a cerveja e já é para vender.” – conclui Eneide.

A cultura da cerveja artesanal atual, reforça as diferenças?

Eneide e Melissa relembram o início da sua carreira no mercado que, para diminuir essas diferenças, acreditam na economia solidária como um meio de trazer a cerveja artesanal pra periferia. Mas, que a forma que o mercado artesanal se apresenta para o mercado é completamente excludente.

“A gente consegue ver isso em qualquer evento que a gente vá, em qualquer bar de artesanal que a gente vá. O mercado é machista e elitista. Existem células como a Beneditas, a Implicantes… que estão se unindo para formar pontes com pessoas marginalizadas, de todos os tipos.” – concorda Tayná.

Tayná também provoca as ações e mobilizações das grandes indústrias de ampliar o consumo de novos estilos. Com muito mais força e capacidade de arriscar, as grandes marcas tem potencial para avançar esse mercado e conquistar esses consumidores mais rapidamente. Para Melissa, esse trabalho pode ser feito pela oferta de produtos e pela educação.

“Eu falo que é gerar atratividade. Na verdade, o que despertou o interesse na gente foi uma oportunidade de negócio. Uma oficina bacana que fizemos.”

Por mais que possa ser acelerado, a parte da educação é um processo naturalmente lento.

“É um trabalho de formiguinha que a gente tem que fazer. Toda cerveja que eu entrego hoje, na periferia, é como se fossem mil.”

A barreira dos insumos

Outro ponto destacado pela Melissa e Eneide é o alto preço dos insumos para se produzir cervejas. A Ludmyla lembrou a conversa que tivemos com a Ana Claudia Pampillón e com o Guilherme Hoffmann, quando indicaram que o investimento que se faz hoje na produção do lúpulo brasileiro é com vista de retorno daqui 15 anos ou mais e isso vai impactar no preço.

O preço é afetado não só pelo valor do dólar, mas também pela carga tributária que não é amigável.

“Com o dólar o preço dos insumos  subiu demais e isso dificulta até o surgimento de novos caseiros.”

Papel da educação sobre cervejas na inclusão

Levantamos a questão sobre a educação, como é apresentada hoje em cursos do mercado, se ela não se torna mais hermética e dificulta a entrada de novos consumidores. O que foi um tema polêmico.

A primeira sensação, dividida pela Eneide é que o mercado precisa simplificar e deixar o tema mais lúdico.

“O mercado, realmente me faz sentir mais burra. Parece que cada dia eu sei menos” – ironiza Eneide.

Para Tayná, essa dificuldade não é algo acidental e tem como interesse manter o acesso limitado.

“Não é acidental que o mercado nos faz sentir o estrangeiro dentro daquele universo, dentro de suas confrarias e grupinhos de cervejas.” 

O papel da educação é fundamental, mas é necessário compreender como e quando ela deve ser inserida. Já que o interesse pelo universo vai se abrindo ao pouco, a cada copo, de acordo com o paladar e isso tem uma escada de conhecimento.

“A educação tem que estar. Ela precisa estar. Só que ela não é uma forma de beber. Ela é uma ferramenta que é usada para a gente construir tais pontes” – aponta Tayná.

Iniciativas que trabalham para a inclusão

Listamos quais seriam as iniciativas que hoje apoiam e ajudam em aumentar a inclusão do público as cervejas artesanais. Foram lembradas:

Conheça mais sobre elas e as apoie da forma que você puder.

Neste programa a Tayná Morena bebeu a Lager, Leandro bebeu a APA e a Melissa e a Eneide beberam a IPA. Todas da Cerveja Corisca. A Lud, diferentona, bebeu uma Lagunitas.

Leandro Bulkool

Leandro Bulkool

Sua paixão por cervejas “especiais” começou por volta de 2003, de lá pra cá sempre vive um amor de verão com diferentes estilos. Atualmente tem seu porto seguro nas barleywine e busca pacificar sua relação com as sours.