Surra de Lúpulo – Ep.109: Mulheres Cervejeiras

mulher cervejeira

No episódio de hoje do Surra de Lúpulo, batemos um papo sensacional com mulheres cervejeiras incríveis que estão empreendendo com cervejarias ciganas na Paraíba e em Ribeirão Preto. Deem as boas vindas às convidadas Ranny Freire, da Femme Cervejaria, e Vanessa Loria, da Bem-Te-Brew. Ouça na íntegra:

Motivação para começar como mulher cervejeira:

 

Quando conversamos com criadoras de marcas cervejeiras, gostamos sempre de saber em que momento acontece aquele “plim” em que tudo fez sentido e a pessoa pensa “é isto, vou investir em cerveja”, e hoje não seria diferente. Sabemos que ser mulher cervejeira, nesse mercado dominado por homens, não deve ser uma escolha que ocorre de forma fácil. Ao perguntar Ranny e Vanessa, foi bacana ver como apesar de respostas distintas, a busca por uma empreitada que trouxesse motivação e ânimo é o ponto em comum.

 

Ranny em 6’33”: Sou engenheira química e aí quando estava no final da minha graduação, eu procurei por um estágio em cervejarias, lá no final de 2017. Infelizmente, eu não consegui porque um detalhe pequeno é que na Paraíba não tinha cervejaria ainda.[…] Daí o meu namorado foi pra Curitiba, e ele tinha um amigo chamado Gabriel, da Menex Cervejaria, e na época eles estavam fazendo testes pra startar e pra começar a vender as cervejas. E aí, uma dessas cervejas veio parar aqui. E foi o meu primeiro contato com cerveja artesanal e era uma IPA e eu já gostei de cara e fiquei “caramba, eu quero fazer cerveja!”. […] Quando foi no final de dezembro (de 2017), a gente lançou a Xerosa, uma APA, apesar de ser uma APA não é tão amarga e é bem leve. O nome dela é Xerosa porque aqui no sertão pouquíssimas pessoas fazem cerveja e todo mundo que eu dava a cerveja pra provar, era unânime o comentário “nossa, que cerveja cheirosa”, e desde então estamos aí!

Vanessa em 9’50”: No momento que me veio essa luz de procurar curso na área cervejeira, foi um momento profissional não muito feliz. E na época eu não estava muito motivada a gastar todos meus recursos, mas tinha necessidade de por movimento, na vida e aprender coisas novas. E aí veio um curso de produção de cerveja caseira, da Cooperativa Cervejeira e vi que tinha tudo a ver. […] E aí comecei a produzir cerveja em casa, mandar pros amigos, pra família e eles começaram a gostar e falar bem. Participei de um concurso de cerveja caseira e peguei o 3o lugar da minha categoria e acendeu aquela luzinha, né, de que eu to indo no caminho certo. E aí pensei em mudar o rumo da vida pra tentar mudar a área e aí veio a ideia de criar a Bem-Te-Brew.

 

Recepção do público local, na Paraíba, à Femme Cervejaria

 

Femme Cervejaria
Imagem: Divulgação/Instagram da marca

 

 A Paraíba ainda está muito atrás em seu mercado cervejeiro local, portanto quisemos entender os desafios de Ranny na criação da Femme.

 

Ranny em 14’43”: Aqui na paraíba ainda somos um mercado muito recente, hoje somos 15 cervejarias e mais da metade disso é cervejaria cigana que surgiu durante a pandemia. A primeira cervejaria paraibana é de 2017 e 2018, então o mercado é bem recente. Aqui a gente acabou de nascer e a primeira cerveja que a gente lançou foi a Xerosa, e apesar de ser uma APA veio com a proposta de ser a nossa cerveja de entrada. A gente não queria lançar uma lagger ou uma pilsen porque não íamos ter preço pra competir. Aqui ainda é um mercado muito recente, então a gente tem que ensinar pra galera o valor da cerveja artesanal. […] Pra gente fazer esse trabalho de convencimento [de consumo de cervejas artesanais], a gente lançou ano passado o projeto Paraíba Cervejeira e como era que funcionava, a gente ia pra João Pessoa uma vez por mês, pra fazer entrega lá, e toda viagem a gente ia pra uma cervejaria de lá, combinava com o pessoal e comprava a cerveja e trazia pro sertão pra vender. E aí a gente criou uma comunidade ali, um grupo de pessoas interessadas em consumir cerveja… 

 

Como a Bem-te-Brew conseguiu competir com as grandes marcas locais?

 

 

Em contrapartida, em Ribeirão Preto o mercado de cervejas é super aquecido, levantando o desafio de ganhar visibilidade em meio a tantas marcas que já tem anos de estrada.

 

Vanessa em 20’04”: Aqui em Ribeirão Preto, recentemente foi criado o Polo Cervejeiro de Ribeirão Preto. Nesse polo, 10 cervejarias se juntaram, dentre elas tanto cervejarias novas se juntaram quanto cervejarias que já têm a anos. Então é muito bom porque o público aqui já é mais maduro, aprecia bastante a cerveja artesanal. Em contrapartida com o que a Ranny comentou é um pessoal que vai atrás da cerveja artesanal e a gente não tem tanto trabalho pra acostumar a entender a cerveja artesanal. Enquanto isso, estou concorrendo com cervejarias que já tem muito chão e eu tenho 2 anos de estrada, sou um neném do lado deles e por ser uma cervejaria cigana, só eu que toco as coisas aqui por enquanto. E as outras cervejarias já tem toda estrutura. […] Por eu ser uma cervejaria cigana, não faço parte do Polo Cervejeiro. 

 

Maiores desafios de ser uma mulher cervejeira no Brasil

 

Em nossa pesquisa, que falamos sobre o retrato dos consumidores de cerveja no Brasil, levantamos o ponto que as mulheres ainda estão longe de ser o público dominante desse mercado; porém, o percentual segue crescendo. Muito além do papel de consumidoras de cerveja, precisamos dar espaço às mulheres que escolhem abrir suas próprias cervejarias – e entender seus desafios como empreendedoras no Brasil.

 

Vanessa em 23’35”: Um ponto que preciso levantar por ser mulher, é uma questão minha que pode afetar outras mulheres do ramo [cervejeiro], que é a síndrome do impostor. Por exemplo, todos mundo fala “nossa, essa cerveja é muito boa, gosto muito da sua marca, da criação, o nome é muito criativo”, mas aqui dentro ainda tá assim “ainda não sou boa o suficiente”… Em geral, eu acho que tudo o que é meu não é bom o suficiente. Tudo bem que se comparar ajuda a alcançar o aperfeiçoamento, mas a síndrome do impostor pega pesado por conta de toda cultura do patriarcado que diz que o homem é sempre melhor. 

Ranny em 27’19”:  A gente aqui no nordeste sofre um pouquinho mais com frete, e eu vou aproveitar o gancho pra contar uma história que talvez venha a ajudar algumas pessoas que pensem em ter cervejaria cigana. Aqui na Paraíba tem muito pouco profissional capacitado a trabalhar com a questão tributária, de contabilidade. E quando a gente foi abrir uma cervejaria, contratei uma contadora e pedi auxílio dela e a gente foi tirando dúvidas com outras pessoas, e acabou que a gente abriu o CNPJ errado. Abrimos CNPJ como comércio varejista e não como fábrica, e aí pra completar a nossa primeira produção cigana foi em Alagoas. Resumo da ópera, não façam isso! Nosso primeiro lote foi só pra pagar imposto. Além disso, depois de estudar mais a fundo, tivemos que mudar o CNPJ. 

 

Como funciona a decisão de quais estilos produzir?

 

Apesar de parecer incrível ser dono da sua própria cervejaria, algumas decisões devem ser difíceis, né? Afinal, quais estilos lançar e quando lançar são perguntas que devem ser feitas. O marketing se mistura com gosto pessoal? 

 

Vanessa em 35’13”: A Bem te brew hoje conta com 3 rótulos, a Quintal (Blonde Ale), a Pomar (Catharina Sour) e Urban (Session Ipa), e eu decidi esses rótulos por conta do clima de Ribeirão Preto – que é um clima muito quente o ano todo, muito seco… Preferi escolher estilos que fossem mais leves e mais agradável pra apreciar nesse clima que a gente tem aqui. Além disso, o Blonde Ale como estilo de entrada e a Session Ipa pra harmonizar com calor de ribeirão, mas atendendo a galera que gosta bastante de Ipa. E trouxe uma cerveja ácida pra combinar com calor, apesar de não agradar tanto o pessoal. Mas o pessoal gosta mesmo da IPA, ela é a queridinha. […] Fui nessa estratégia de casar a drinkability com cor e clima. 

Ranny em 37’34”: A gente começou com a Xerosa porque foi a primeira cerveja que eu fiz e tenho muito carinho porque foi com ela que aprendi muita coisa. Fiz uma receita base e fui brincando e variando o malte, aprendendo sobre levedura… Usei ela pra estudar o processo de produção de cerveja; a referência que eu tinha era pouca. […]  Ela é uma cerveja bem leve e fácil de beber, não é aquele amargo… A gente tentou caprichar no melhor que uma APA pode ter, que é o aroma, né. As pessoas se apegam ao aroma e o amargor vai-se embora. 

 

Para encerrar o nosso bate papo incrível, as convidadas falam sobre como a sororidade está presente no mercado cervejeiro.

Quando as mulheres consumidoras descobrem quem são as criadoras das marcas, ficam super empolgadas e dão ainda mais força com divulgação no boca-a-boca e adquirindo os rótulos. Compre local e compre de mulheres!

Até a próxima!

 


 

👉 Ouça também Surra de Lúpulo: Empreendedorismo Feminino com Japas Cervejaria

 

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🍻 O que bebemos durante o programa? Vanessa bebe Blonde Ale da Bem te Brew, Ranny bebe Xeirosa, da Femme Cervejaria, Ludmyla bebe Gojaira, da Japas Cervejaria e Leandro bebe a Vienna, da Narcose. 

 

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Toda quinta-feira um episódio novinho em folha falando sobre tudo relacionado a cerveja no Brasil e o Mundo.