Podcast Surra de Lúpulo, ep. 50, Amnésia alcoólica: o que lembramos e o que nos contam, com NaruHodo!

No episódio 50 do Surra de Lúpulo, nosso podcast de cerveja artesanal, tivemos o prazer de receber mais uma vez (nosso papo anterior foi no episódio 36) o publicitário Ken Fujioka e o doutor em psicologia Altay de Souza, criadores e apresentadores do podcast de ciência NaruHodo! para falar sobre um tema que tem tudo a ver com o dia 1º de abril: amnésia alcoólica! E, antes que a gente se esqueça (ba dum tsssssss!), os dois já alertam para os bebedores de plantão: absolutamente qualquer pessoa está suscetível a se esquecer das coisas depois de uma quantidade de bebida X.

Para ficar claro como se dá a relação entre o consumo de álcool e a perda da memória, Altay explica que o que faz a pessoa começar a esquecer os registros durante o consumo de bebidas varia de acordo com diversos fatores, entre eles peso, idade e gênero; mas, a fórmula mais importante para entender essa lógica é quantidade de álcool ingerida x velocidade do consumo. “Pessoas que vão intercalando o consumo de álcool com água, bebendo um ou dois copos a cada novo copo de cerveja, tendem a ser menos suscetíveis a porres muito severos e à amnésia alcoólica. Não é porque a água ajude a filtrar a quantidade de álcool no sangue: ela ajuda porque simplesmente espaça o tempo de ingestão da bebida e faz com que a pessoa diminua a relação álcool x velocidade”.

“Se eu não lembro eu não fiz.”

Mas o que de fato acontece para que a amnésia alcoólica ocorra? “Nós não esquecemos as coisas por igual porque temos diferentes tipos de memória. A mais comum, e mais usada por nós, é a memória declarativa, que é aquela que registra os fatos enquanto narrativa, criando assim o contexto da situação social vivida. Cada novo fato é como se fosse um carimbo num papel, e esses carimbos vão se sobrepondo ao longo do tempo. O álcool afeta a velocidade das sinapses e faz com que nossa capacidade de processamento fique bem mais lenta e com que alguns “carimbos” não sejam feitos durante esse período. Por isso é tão comum que a pessoa que passou por um episódio de amnésia alcoólica se lembre da noite anterior apenas em flashes – ou seja, ela só registrou alguns dos “carimbos” -, e, em geral, depois que resgata alguma lembrança acionada por pista. Exemplo: fulano não se lembra de ter dançado sem roupa, mas, quando você dá uma pista do ambiente [dançando sem roupa perto da pessoa de camisa vermelha], a memória declarativa é recuperada e a pessoa cai em si”.

“Eu não bebo muito, mas a pessoa que eu viro depois de beber, essa sim, bebe pra caramba!”

E o que explica o curioso caso de pessoas superresistentes ao álcool, que parecem nunca se esquecer do que estão fazendo ou das coisas ao redor? “Na verdade isso é uma impressão falsa. Geralmente as pessoas superarticuladas também sofrem o efeito da amnésia alcoólica e é facil perceber isso fazendo um teste. Se você pergunta algo relacionado À memória de curto prazo, a pessoa consegue te responder. Mas peça alguma informação mais antiga e você vai ver essa pessoa criando uma confabulação, ou seja, contando histórias elaboradas e longas que servem para dar tempo ao cérebro de acessar aquela única informação necessária que está distante. Essas pessoas demoram mais a perceber conscientemente que estão bêbadas, mas o corpo em geral começa a dar sinais claros um pouco antes disso: o soluço é um deles”, explica Altay.

“A saideira é uma falácia: na verdade, ela é só a última garrafa da qual você se se lembra.”

Mas, por mais que os episódios de esquecimento relacionados ao consumo de álcool acabem se tornando anedóticos e sejam socialmente vistos como um traço cultural pitoresco, muitos deles podem prejudicar a memória e gerar consquências mais graves quando associados ao alcoolismo, por exemplo. “A amnésia crônica associada ao consumo de álcool é provocada pela chamada Síndrome de Korsakoff, que é uma severa deficiência de vitamina B1 (tiamina)“, explica Altay.

Da Wikipedia:

Muitas vezes a vítima não tem consciência de sua condição. A amnésia anterógrada está relacionada com o comprometimento da memória de curto prazo, ou seja, o doente se torna incapaz de formar novas memórias a partir do momento em que desenvolve a doença, e a amnésia retrógrada está relacionada à memória de longo prazo, assim o doente perde grande parte da memória que havia se formado antes da doença.

É baseado nessa severa condição que o neurologista Oliver Sacks (em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu“) relaciona a síndrome de Korsakoff à perda da identidade, pois vítima de uma amnésia retro-anterógrada o doente perde por inteiro sua linha biográfica, sua história, e permanece incapaz de construir outra, sendo obrigado a viver como uma pessoa sem história de vida. A memória é fundamental para a formação do senso de identidade na consciência.

Como consequência desse severo quadro é que ocorre a confabulação, que seria uma tentativa do doente de preencher suas lacunas mnemônicas com imaginações e ficções aparentemente verossímeis, nas quais ele próprio poderia acreditar. Outra consequência seria a desorientação temporoespacial, claramente causada pela incapacidade da pessoa de medir sua existência no tempo.[4]

Com o tempo, o declínio de atividade mental pode evoluir para demência, coma e morte. É uma causa comum de morte de moradores de rua e pacientes psiquiátricos internados.

 

Surra de Lúpulo

Surra de Lúpulo

Toda quinta-feira um episódio novinho em folha falando sobre tudo relacionado a cerveja no Brasil e o Mundo.