Surra de Lúpulo Ep.112 – Profissão Sommelier com Pricolares e Doutor Breja

profissão sommelier

No bate papo de hoje do Surra de Lúpulo, seu podcast favorito sobre cervejas artesanais, conversamos com Priscila Colares, do Pricolares Sommelieria, e Alexandre Bleed, o Doutor Breja, sobre a profissão sommelier. Quais as glórias dessa profissão e suas lutas? Quem vê o close no Instagram, vê os corres? Vem com a gente e ouça na íntegra:

 

 

A profissão sommelier é valorizada no mercado cervejeiro?

Para aquecer nosso bate papo, começamos com uma pergunta de degustação para entender a visão dos profissionais sommelier sobre o mercado cervejeiro e como estão inseridos.

 

Bleed em 11’45”: Olha, acho que depende muito da região… De forma geral, eu diria que não. Existe sim uma desvalorização da profissão sommelier ainda aqui no Brasil. Isso é muito consequência do que foi feito até aqui, e quando falo isso, não falo como crítica ao que já foi feito e sim como reflexão. Não só minha como professor, mas também como um alerta pras pessoas pra que essa reflexão se estenda pro brasil todo. Se a gente quer algo diferente, precisamos fazer diferente.  

Priscila em 13’26”: Eu acho que não. Não vejo nenhuma região do Brasil valorizar bem o sommelier, não vejo dessa forma. Acho que tem muita confusão sobre o que faz o sommelier de cerveja – tanto que várias vezes me chamam pra eventos, me apresentando como mestra cervejeira… Então acho que tem uma falha no entendimento do que o sommelier faz fora do mercado e dentro do mercado tem uma desvalorização de acharem que o sommelier não teria função ali; e fazer muita chacota de que sommelier é blogueirinho. 

 

Quais são as atividades que o sommelier está apto a fazer?

 

 

Priscila em 17’44”: Carta de cerveja é uma coisa muito legal, a gente fica muito no viés de fazer uma carta de cerveja para estabelecimentos. Mas eu faço muito mais cartas de cerveja para eventos. […] Harmonizações, estar dentro do ponto de venda auxiliando efetivamente o cliente. Eu não vejo tanta gente nos locais que vou com pessoas que entendem de cerveja pra poder explicar, de ter cardápios harmonizados… A própria função de educar o consumidor, trazer informação, trazer novidade… […] É difícil fazer uma coisa só e pagar as contas hoje em dia, então eu vejo o Instagram como uma ferramenta extra de qualquer profissão, mas às vezes eu me pego perguntando se tem hora que eu estou mais uma sommelier ou mais blogueira.

 

Bleed em 20’30”: Tem várias atividades que o sommelier pode fazer e acho sim que o Instagram faz parte. Acho até engraçado porque muitas pessoas entram no doutor breja e acham que eu sou aquilo ali. As pessoas não veem os trabalhos que eu faço com a mão na massa. […] Eu dou aula desde 2017, já formei mais de 150 alunos só aqui em São José dos Campos. Muitas vezes a gente só mostra no Instagram uma parte do que é [a vida de sommelier], então a reflexão é aquela: tô passando a informação do que não é real do meu dia a dia. […] O sommelier de cerveja pode avaliar as cervejas do mercado, pode participar de julgamentos, pode comprar produtos para a adega de supermercado (curadoria de rótulos), além disso o sommelier pode elaborar cartas para bares, eventos, hotéis… A parte de serviço, cuidado com linha de torneiras (linhas de Chopp), beer-hunting…

 

O que vocês acham que precisa mudar e melhorar nos cursos de sommelier?

 

 

Quando falamos de curso de sommelier, é difícil definir seu público alvo. Isso porque muitas pessoas que tem o conhecimento cervejeiro como hobby procuram o curso para satisfazer essa curiosidade. No entanto, precisamos entender que há pessoas que querem de fato trabalhar como sommelier – e surge essa dúvida: os cursos de sommelier estão formando hobbystas ou sommelier profissionais? Bleed, que está no mercado a muito tempo levantou algumas questões super válidas para o nosso papo.

 

Bleed em 36’29”:  A gente tinha uma aula de limpar taças, aí acabava a aula e eu ficava com a minha ajudante limpando 150 taças. Daí eu percebi que eu não precisava limpar as taças, eu já sabia lavar, já não quebrava mais nenhuma. […] Muitas vezes você está dando aula pra uma instituição e ela não libera a saída da escola e geralmente você não tem um tap-room ali pra você mostrar como faz isso pro aluno. Então, esse foi o lado que eu me apaixonei ao sair de uma grande instituição e sair com as próprias pernas. Não está sendo fácil pra mim, mas eu acredito que a gente vai chegar num curso de maior excelência porque a gente vai ter liberdade. Quando eu criei a ponte cervejeira, meu intuito foi formar profissionais cervejeiros. Porque eu vejo que o curso de sommelier, mais de 50% que fazem, fazem como hobby ou pra aperfeiçoar – e não tem nada de errado nisso. Mas na minha visão, se o curso de sommelier é desenhado pro hobbysta, o profissional fica aquém do desejado pelo mercado. 

 

Quais são os perrengues da vida do sommelier?

 

 

Bleed em 53’38”: Bom, vou começar contando de um programa muito famoso da TV Brasileira, que fomos convidados a participar. A gente foi fazer o serviço da cerveja, lógico que lá só passa o nome da cerveja, não tem muita gerência, né. Na hora que eu abri a lata e fui colocar a cerveja no copo o copo estava tão sujo… Na minha cabeça eu só rezava “meu deus, o sommelier da depressão não pode ver isso, não dá close na taça…”. Confesso pra vocês que quando eu aquela taça inteira, extremamente suja eu pensei meu deus do céu… Foi uma situação que eu fiquei muito constrangido e fiquei pensando, na próxima vez que eu for eu vou levar minhas taças, né, melhor assim.

Priscila em 55’20”: A questão da eficiência de ir montando carta de evento, você faz aquela caça às cervejas, buscar tudo e as pessoas estão sempre com urgência. Aí você entrega tudo perfeito e o evento é daqui a um mês, mas a pessoa quer tudo agora, okay, e você já entregou tudo. E a pessoa só começa a comprar os negócios faltando uma semana pro evento e aí já não tem mais aquele preço, já não tem mais aquela cerveja, a harmonização que você sugeriu, não vai dar, você vai ter que inventar uma harmonização…[…] É um negócio que acontecia com tanta frequência e eu tento contornar a situação perguntando quando é o evento, né.

 

Qual é a importância de ter a profissão sommelier reconhecida no ministério do trabalho? Como isso aconteceu?

 

 

Nossa convidada explica que estava querendo emitir nota fiscal como sommelier de cerveja e não estava conseguindo. Falar de valorização do trabalho do sommelier, exige que você formalize a profissão, e foi isso que ela correu atrás para fazer.  Priscila começou a entender que não tem como ter um CNAE se a profissão não existe. Com isso, falou com um grupo de amigos sommelier de cerveja e mandou vários e-mail para o CBO, mas os e-mails nunca eram respondidos.

Priscila explica que foram uns 7 meses tentando contato, mas que só recebeu retorno pela Abracerva. Eles pediram uma indicação de outras pessoas que trabalhavam no mercado e pediram uma reunião pra descrever as funções; o que era necessário para trabalhar. Foi uma reunião com várias pessoas do mercado, de vários nichos de sommelier diferentes (sake, cachaça…) pra matar vários coelhos numa tacada só. Paralelo a isso, Priscila entrou em contato com um deputado pra poder fazer a mudança na legislação de sommelier, que era somente para vinho. Valeu, Priscila por correr atrás de formalizar essa profissão incrível que faz o mercado cervejeiro girar!

 

Obrigada pelo bate papo sensacional, Priscila e Bleed.

Até a próxima!

 


 

👉 Ouça também Surra de Lúpulo: Profissões cervejeiras com Rosária Pacheco e Lucas Niemeyer

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🍻 O que bebemos no episódio: Priscila bebe Table Saison (Doutor Breja e Cervejaria Amana), Bleed bebe Finder da Spartakus, Ludmyla bebe água, Leandro bebe Entomology, da Dádiva.

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Toda quinta-feira um episódio novinho em folha falando sobre tudo relacionado a cerveja no Brasil e o Mundo.