Podcast Surra de Lúpulo, ep. 41: História da cerveja no Brasil, com Sérgio Barra

No episódio 41 do Surra de Lúpulo, nosso podcast de cerveja artesanal, tivemos a honra e o prazer de conversar sobre a história da cerveja no Brasil com Sérgio Barra, que é doutor em História cultural, especializado em patrimônio cultural e, também, sommelier de cerveja formado pelo instituto Marketing Cervejeiro e nome por trás do Profano Graal (que também está no instagram!).

Além da enxurrada de informações valiosas que compartilha com os amantes do lúpulo nesta edição 41, Sérgio também oferece aos leitores do IPAcondríaca um pequeno artigo sobre os primórdios da cerveja no Brasil colonial e no Brasil república, contando um pouco mais da trajetória da bebida até se estabelecer como uma de nossas principais indústrias e se tornar parte da identidade nacional. O papo com o sommelier é um copo cheio para brewers iniciantes e experientes!

É um papo, aliás, que poderia ter durado bem mais do que quarenta e cinco minutos especialmente por dois motivos: a) Sérgio é um apreciador de cerveja apaixonado e cheio de dados interessantes e b) o registro da atividade cervejeira no Brasil é repleto de lacunas que ele aos poucos vai tentando preencher com muita pesquisa. A dedicação do nosso convidado ao tema começa após uma virada em sua carreira: depois de vinte anos trabalhando no meio acadêmico, Sérgio decidiu ingressar no curso de formação de sommelier de cerveja. Na disciplina de história da cerveja, logo percebeu que havia muitos dados históricos em nível mundial, mas, que no caso do Brasil, muito pouco havia sido registrado e pesquisado de forma mais extensa. 

Para Sérgio, a explicação está, sobretudo, na falta de historiadores de formação trabalhando efetivamente no segmento. “É claro que a História não é monopólio do historiador, profissionais de outras formações escrevem muito bem a respeito, mas acho que falta esse olhar próprio da nossa profissão, falta aprender a fazer as perguntas certas para sabermos mais sobre a história da cerveja no Brasil”, explica ele, que em seu instagram @profanograal traz um pouco dessa bagagem a cada novo rótulo que compartilha e comenta.


 

Texto abaixo por Sérgio Barra, historiador e sommelier de cerveja, autor do instagram @profanograal

A história da cerveja ocupa, geralmente, um papel secundário e discreto diante de todas as outras áreas que compõem o universo cervejeiro. De todo modo, todo cervejeiro já ouviu falar da lei alemã de Pureza da Cerveja, dos monges cervejeiros trapistas ou da história das IPAs que eram levadas para a Índia (seja essa última história real ou não). Mas quando se fala da história da cerveja no Brasil o quadro é outro e aí nos vemos diante de uma desinformação quase completa. 

A pergunta mais comum com relação ao tema é:  qual foi a primeira cervejaria do Brasil? E oito entre dez cervejeiros não hesitarão em responder que foi a cervejaria Bohemia, de Petrópolis, fundada em 1853. Os dois restantes talvez lembrem que os holandeses fundaram uma cervejaria no Recife no século XVII. Curiosamente, todos os dez estarão errados! Poucos já terão ouvido falar nos anúncios da Cerveja Brazileira, publicados no Jornal do Commercio entre outubro e novembro de 1836, 17 anos antes, portanto, da criação da cervejaria de Petrópolis. Alguns poderão lembrar que ainda antes, na década de 1820, imigrantes alemães produziam cerveja no Rio Grande do Sul para consumo próprio, mas também para vender nos armazéns secos e molhados que abasteciam as colônias pioneiras. E aqueles que apostam nos holandeses cometem um erro não factual, mas conceitual: se esquecem que, então, o Brasil não era ainda Brasil: era Nova Holanda.

Apesar do consumo de cerveja ter se popularizado em nosso país  apenas no século XX, no século XIX encontramos um quadro produtivo bem mais diversificado em termos de quantidade e qualidade. É possível enumerar mais de 30 cervejarias apenas no Rio de Janeiro ao longo do século. Dessa forma, se por um lado a produção cervejeira não desempenha papel significativo na economia do Império do Brasil, por outro desempenha importante papel histórico. É por meio dos anúncios dessas cervejarias nos periódicos da época, em especial no Almanak Laemmert, que ficamos sabendo quais estilos eram fabricados, seus preços e também como os cervejeiros de então adquiriam seus insumos (quase totalmente importados): garrafas, rolhas, rótulos e todos os demais apetrechos necessários à fabricação e comercialização da bebida.

Completa o quadro do mercado cervejeiro brasileiro no século XIX a presença das cervejas importadas, primeiro da Inglaterra e, na segunda metade do século, da Alemanha. Edgar Köb afirma que as cervejas inglesas dominaram o mercado brasileiro até a década de 1860 primeiro com o estilo Porter, seguido pelas Pale Ales. O que nos leva a crer  que as famosas IPAs que se dirigiam à Índia faziam escala primeiro no porto do Rio de Janeiro. 

A pesquisa sobre a história da cerveja no Brasil está apenas engatinhando. Várias perguntas ainda permanecem sem resposta ou foram apenas parcialmente respondidas: como era o maquinário dessas cervejarias? E a sua arquitetura? E a sua mão-de-obra, era livre ou escravizada? E, uma vez que a escrita da história se assemelha a um quebra-cabeças reverso , a cada nova peça que se encaixa, novas lacunas aparecem. Por isso, o trabalho do historiador é um trabalho eternamente inconcluso. Mas, ao contrário do que parece, isso não nos desanima. Pelo contrário! É o que faz com que a pesquisa continue. Vamos a ela! Quem me acompanha?

Surra de Lúpulo

Surra de Lúpulo

Toda quinta-feira um episódio novinho em folha falando sobre tudo relacionado a cerveja no Brasil e o Mundo.